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sexta-feira, 17 de março de 2017

Dois dias sem você.



Um silêncio, intenso e insano silêncio. Depois que te deixei na rodoviária parecia que ouvia coisas pela primeira vez. Entrei no carro e o barulho da porta ecoou dentro de mim. Senti a onda emitida entre a física e o emocional. Fiquei desatenta e dirigir de volta para casa foi... Não consigo transcrever o vácuo, o vazio, a falta, a vaga, a ausência. Mas foi um acontecimento capenga. Isso, capengante.

Tive que aprender, óbvio, a abrir a porta de casa e desistir da ideia de sentir a minha saudade manca. Não fazia nem dez minutos e eu já me encontrava de olhos iguais, sem reação, idênticos por nada. Sentei no sofá, liguei a TV e meus olhos, nada, nada. Nenhuma admiração vinha deles, não serviam nem para procurar o horário que fica no cantinho da tela.

Nem louça na pia, nem chimarrão pra fazer, nem cama pra arrumar. Nada! Um dia assim, nada. Já havia tomado café com a pessoa que caso todos os dias, uma união renovada todas as manhãs com jeito e cheiro de café passado. Ah, e na noite anterior já havíamos lavado as roupas e estendido também. Então...  O dia já estava finalizado antes da meia noite, antes do meio dia.

Eu defino essa surdez momentânea e desalinho vital como sendo uma síndrome de dois dias, eu acho. Agora com esse meu “eu acho” que fazem referência ao tempo de dois dias, já me deixo mais pacata ainda, pois me vem um zunido de que vai demorar bem mais que dois.

Dialogando números, lembrei os barulhos que nunca tinha presenciado. Uma descoberta auditiva da sonoridade de quando estamos sós. Descobri que a madeira resmunga, que o chuveiro pinga incansavelmente num ritmo extremo, que o vento assovia durante a madrugada, que o guarda da rua apita duas vezes por hora, que a caixa de som faz “frizfrizfrizfriz” quando desligada...  A vida toda ela é assim, toda reproduzida, barulhenta.

Ficar esses dias sem o teu olhar incessante não me deixou mais livre, porque o nosso ir e vir não pertence a ninguém, apenas optamos por seguir na mesma canoa. 

A parte que fica sem compasso é o nosso companheirismo, que de tão mútuo, parece que não conseguimos viver um sem o outro e que o mundo vira nada, nada, parando de uma vez só. Mas só parece e a gente sabe que só parece, mas mesmo assim o dia todo parece que não vai ter fim.

Deitar as pálpebras e inspirar um alívio, abrir os olhos e expirar o amor... Deixá-lo transbordar do jeito dele, devagar, sem pressa, dois dias, dois dias, dois dias... Dois dias para que tudo continue igual, perfeito! Dois dias, dois dias e eu aqui sorrindo estre cada palavra que repito nesse texto: dois dias, dois dias... Quem diria, quem diria que dois dias na minha vida seriam contados assim, de um jeito inspirador de dois dias.


A felicidade também inspira os corações que um dia (ou dois) foram espancados de todas as órbitas do orbe. Um relacionamento equilibrado também causa a calmaria entre o amor e a paixão. A corda bamba existe e cair faz parte, mas levantar o coração é ser justo com a própria história. Hoje é sexta, é fim de semana, mas não o fim do dia. 
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