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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Meu sangue fervendo em 100°C.



A rua estava adormecida e os cães em quietude. Análogos a você, Sr. do Universo. Belo adormecido! Um amor – não a mim. Dormi com o peso da solidão num isolamento do quarto fechado. Abri um olho às oito horas da manhã, passei frente ao telefone e nenhum motivo me fez acender a outra pupila. Interessei-me pelo mal de querer dormir pra sempre, nada mais.

O mundo desaba em várias quedas quando conectamos nossas expectativas ao silêncio, ao não correspondido, ao desentendido, ao escuro, ao fim e deu. Minha vida embolorada e uma queimação dentro do peito, a garganta cheia de nós e meu nariz vivendo na coriza. A gripe, o resfriado, o edredom e os grãos de café, assim as coisas seguiam para o forte do inverno e o meu coração em neves, derretido.

Eu sei, eu sei, sei que o dia de amanhã será menos abafado e os desabafos menos frequentes. Aproveito minha escrita oportunista e os dias chuvosos para produzir esse efeito de dor.

Entrego-me de uma vez única e no outro dia não tenho o que apresentar de mim. Foi esse o pecado, uma certeza que foi. E agora, tu aí do outro lado da linha pensando nem sei o quê. E eu sentada em minhas palavras pensando num sentido para acabar de vez com esse texto. A falta de arranjo e nexo dessa conversa monologa deixam furos, buracos, poros, orifícios, deixam a minha pele baleada e as veias uma peneira.

Mais nada me surpreenderia se fosse diferente, é bem assim. Acho que gosto disso: do gosto de escrever sobre o café passado da noite anterior. Às vezes, a memória falha um assunto e logo esqueço o que estava pensando, é bem assim. Acho que gosto do gosto de escrever sobre o esquecimento de uma chaleira no fogo. 

Que perigo a ebulição da água e o meu sangue fervendo em cem graus e nada de evaporações sentimentais. As coisas não vão embora, assim do nada. A gente ferve, ferve e ferve e quanto mais queima, menos se transforma.

Na natureza é assim: sol, chuva, verão, neve. Estou complicada perto desse ciclo natural. Tudo bem, eu considero-o como uma árvore sábia que jamais morrerá depressa. Mas não é tão numeroso diante da biodiversidade. Não morrerá depressa em mim.

O que desapareceu agora foi a chuva, mas as roupas com seu cheiro molhado estão aí, prontas a serem lavadas tudo outra vez. Um café e a vida já se acomoda, uma companhia e a vida não se acaba.


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